PROGRAMA


“Obrigatório não ver" era um programa da década 70 que era transmitido na rtp2. Estes programas eram devidamente compostos por guiões que davam seguimento controlado ao programa. Até hoje, nos registos do arquivo do Centro de Documentação da RTP ainda não foram encontradas provas consistentes da emissão desses programas nas datas referidas nos guiões existentes. No entanto muitos foram emitidos em directo, não havendo acesso directo a esses programas foram fornecidos os guiões de Ana Hatherly, uma figura irreverente na poesia experimental. Estes programas de televisão consistiam em entrevistas a várias personalidades importantes relacionadas com a poesia concreta onde se destaca António Ramos Rosa e Ernesto de Melo e Castro. Também abordam temas musicais onde são referenciados Jorge Lima Barreto e Ernesto de Melo e Castro que expõe poemas seus.


PROGRAMA 3

Texto de abertura [sobre cartão-título do programa]


Creio que toda a poesia moderna, como aliás toda a arte e toda a literatura autenticamente modernas, nascem da experimentação. Há uma crise, sem dúvida, mas esta tem sentido positivo - e não de decadência. Crise que, como diz Harold Rosenberg, põe em causa os próprios instrumentos da avaliação da crise. Esta crise é a da própria liberdade - melhor, é a própria liberdade. O artista moderno já não aceita nenhuma determinação, já não é o eco, o porta-voz, o reflexo de nenhuma ideologia, religião ou partido - é ele próprio, um homem nu, essencial, um nada e um tudo, um tudo-nada, procurando-se, refazendo-se, desfazendo-se refazendo-se, sempre segundo este espírito experimental: o espírito da liberdade, o espírito da procura. Em vão se procurará subestimar esta liberdade: ela é o próprio espírito da nossa época, o único estatuto do poeta.

[Pequena pausa e começa a falar]

Este excerto de um texto de António Ramos Rosa, publicado em 1965 no Suplemento do Jornal do Fundão dedicado à Poesia Experimental, serve-nos de introdução à espécie de visita guiada que hoje vamos fazer precisamente à Poesia Experimental Portuguesa, um dos três movimentos de vanguarda que desde o início do século se produziram em Portugal. Dos outros dois - o Futurismo/Modernismo de Orpheu e o Surrealismo -, falaremos a seu tempo. Hoje vamos ver o testemunho concreto do que foi e é a Poesia Experimental Portuguesa, cuja história está feita pelas obras produzidas e que aparecerá em volume, neste momento em preparação, a cargo de Ernesto de Melo e Castro e de mim própria.

Seguindo um roteiro cronológico, poderemos dizer que, eliminados os precedentes, de que falaremos também noutra ocasião, a primeira manifestação oficial, ou seja, a primeira apresentação, ou a proposta pública de um poema concreto em Portugal, tem a data de 1959, e foi feita por mim, num artigo publicado no Suplemento Literário do Diário de Notícias, mas essa proposta passou bastante despercebida e é sobretudo com o aparecimento, em 1962, dos Ideogramas de Melo e Castro que o público toma contacto com a Poesia Concreta. [Mostra o livro]

Em 1962, Melo e Castro envia uma carta ao Times Literary Supplement sobre a Poesia Concreta em Portugal, que a publica, e essa carta, segundo Edwin Morgan, dá início em Inglaterra ao interesse pela Poesia Concreta nesse país, que depois se desenvolve largamente, como em muitos outros países, pela mão dos concretistas brasileiros e pela mão de Gomringer. Em 1963, Melo e Castro publica A Poligonia do Soneto - [mostra o livro] - uma obra que levanta enorme celeuma, de que se destaca o soneto SOMA 14-X [mostra a página] - hoje incluído nos livros para o ensino preparatório, mas que na época foi considerado um verdadeiro ultraje.

Finalmente, surge, em 1964, a Poesia Experimental I - [mostra a capa da revista e vai mostrando o interior enquanto a fala prossegue]. António Aragão vem de Itália e encontra-se com Herberto Helder, falam da vanguarda europeia e sobretudo da italiana, das experiências da poesia com computadores, das experiências que nesse campo fazia Nino Ballestrini, que depois vão inspirar a Herberto Helder o seu célebre livro Electronicolírica. António Aragão e Herberto Helder resolvem publicar uma revista de Poesia Experimental. Convidam Melo e Castro e Salette Tavares, dois poetas experimentais com obra nesse campo, e ainda António Ramos Rosa que, não sendo um poeta experimental propriamente dito, pode ser considerado como um precursor. A revista é organizada e vamos ver agora em slide uma página da colaboração de Salette Tavares, que veio a ser o poema visual mais célebre da Poesia Experimental 1 - [slide - mostra a aranha].

Essa revista, que inclui ainda a participação de António Barahona da Fonseca e Mário Cesariny de Vasconcelos, vindos do Surrealismo, oferece também uma antologia de textos de Camões e de Ângelo de Lima, ao lado de poetas estrangeiros antigos e modernos.
Do ponto de vista teórico, a revista é deficiente: apresenta um esboço de manifesto, da autoria de Herberto Helder, que não chega a ser um manifesto, mas essa deficiência teórica começa a ser corrigida em 1965 com o Suplemento do Jornal do Fundão, onde António Ramos Rosa, António Aragão, Melo e Castro e José Blanc de Portugal defendem posições claras sobre o que pretende a Poesia Experimental- [mostra o jornal].

Em 1965 Melo e Castro publica a Proposição 2.01 - [mostra o livro] - um pequeno livro teórico em que explica o seu ponto de vista quanto à Poesia Experimental, um livro altamente contestado, que deu origem a muita discussão com a crítica.
Finalmente, em 1966, surge a Poesia Experimental 2 - [slide da capa] com uma colaboração alargada a muitos outros poetas portugueses e em que surgem, pela mão de Melo e Castro, os concretistas brasileiros, ingleses e italianos, e o compositor Jorge Peixinho, que sempre esteve ao lado dos poetas experimentais. É sobretudo a partir daí que a ligação entre a Poesia Experimental e o Concretismo se afirma e começa a afirmar-se também na opinião pública uma identificação: Poesia Experimental é igual a Concretismo, o que não é rigorosamente verdade, embora o seja em parte.

O desacordo entre as posições teóricas que começam a ser assumidas publicamente em relação à Poesia Experimental cria uma cisão dentro do grupo dos organizadores e Herberto Helder desliga-se publicamente do movimento da Poesia Experimental. Outros poetas que tinham colaborado no número 2 da revista desligaram-se também e, por fim, ficou uma frente de quatro membros activos: António Aragão, Salette Tavares, Melo e Castro e eu própria. A partir de então, eu e o Melo e Castro começámos a enfrentar os embates violentos da crítica que até hoje não cessaram.

Paralelamente à publicação destes dois únicos números da Poesia Experimental, houve outras manifestações públicas, como recitais e exposições, de que é exemplo a que se realizou em 1965 na Galeria Divulgação, de que estamos a ver imagens do catálogo [mostra VISO POEMAS] e que, além de uma exposição de poemas de Herberto Helder, António Aragão, Salette Tavares e Melo e Castro, inclui também um happening em que colaborou Jorge Peixinho. Essa foi uma intervenção dos poetas experimentais que causou enorme escândalo, no público e na crítica. Em 1966, Melo e Castro expõe na Galeria 111 os seus poemas cinéticos - [mostra imagem].

Em 1967 surge outra revista - Hidra 1 - com capa de João Vieira, um pintor de vanguarda que esteve também associado aos Poetas Experimentais. Também em 1967, António Aragão publica Mais Exactamente P(r)o(bl)emas - [mostra imagem da capa do livro] até que chegamos, finalmente, ao aparecimento, também em 1967, dos dois números, também únicos, de outra revista experimental- a Operação I e a Operação 2 -lançados na Galeria Quadrante em Lisboa, durante uma intervenção colectiva, uma performance a que se chamou «conferência- objecto», um outro enorme escândalo no meio lisboeta - [mostra a revista]. A capa foi concebida por João Vieira. Os poetas colaboradores foram António Aragão, Ana Hatherly, Melo e Castro, José Alberto Marques e Pedro Xisto. Também colaborou Jorge Peixinho com duas composições em fita magnética.

Quanto à Operação 2, tinha só colaboração minha, porque nesse momento eu era o único poeta que fazia experiências programáticas de texto no sector da aplicação rigorosa dos princípios do Estruturalismo então vigente, a da linguística moderna [ver texto em PO.EX.], sobretudo de Saussure e Jakobson. De escândalo em escândalo, os poetas experimentais seguiram o seu caminho, e em 1969 surge a Hidra 2 - [mostra a capa]- em que colaboram novos poetas experimentais, como Silvestre Pestana e Nei Leandro de Castro, um brasileiro do grupo da Poesia Processo.

Em 1969 eu exponho na Galeria Quadrante os primeiros resultados do que viria a ser uma longa investigação da escrita - [mostra o catálogo de Anagramas] - e em 1970 publico o Anagramático - [mostra o livro] -uma obra que levantou uma enorme polémica, por incluir as «31 variações» sobre o famoso texto de Camões «Descalça vai para a fonte/Leonor pela verdura», um texto programático que causou um escândalo enorme.

Em 1970, surge o Labirintodonte de Alberto Pimenta, que, não tendo feito parte do grupo inicial da Poesia Experimental, veio a afirmar-se como um dos seus representantes mais valiosos - [mostra o livro]. Em 1971, surge a Gramática Histórica, de Álvaro Neto, aliás, Liberto Cruz - [mostra o livro]; surge Aleae Vazio, de Melo e Castro[mostra o livro]; surge Entes e Contraentes, de Alberto Pimenta - [mostra o livro]; surge Lex Icon, de Salette Tavares - [mostra o livro]. Já em 1972, Visão Vision, de Melo e Castro - [mostra o livro] -, que é uma primeira antologia dos seus textos visuais de que vamos ver algumas imagens - [são 10 slides].

Em 1973, surge a Antologia da Poesia Concreta, organizada por Melo e Castro e José Alberto Marques, de que vamos ver algumas imagens [mostrar 3 serigrafias de Salette Tavares, 4 slides de António Aragão e José Alberto Marques]. Também em 1973, surge o meu livro Mapas da Imaginação e da Memória - [mostrar o livro; desatar e começar a abrir; segue para slides enquanto fala] - uma antologia dos principais trabalhos sobre uma investigação das origens da escrita e de poemas visuais feitos a partir dessa investigação.

Em 1974, Melo e Castro publica Concepto-Incerto - [mostra o livro] - que esteve exposto na Galeria Buchholz. Em 1975, eu publico A Reinvenção da Leitura - [mostra o livro] -, um pequeno livro em que há um texto que relata a história da Poesia Concreta e suas origens, seguido de 19 poemas visuais meus - [folheia o livro]. Em 1975, publico também O Escritor - [mostra o livro e segue para slides] - um livro inteiramente composto de poemas visuais, representando a vida e a morte do escritor ou da escrita. Ainda nesse ano, António Aragão publica Bancos [mostra o livro e segue para slides] um livro de poemas visuais de intensa crítica, aliada a um humor corrosivo, que é, aliás, uma das características de muita da poesia dos experimentalistas portugueses, e não só.

Em 1976, Melo e Castro publica um livro teórico, Dialéctica das Vanguardas - [mostra o livro] - e, em 1977, surge no Porto Literatura Cibernética 1, de Pedro Barbosa - [mostra o livro] - em que se relatam experiências de poesia feitas com computador, retomando assim o ponto de início da Poesia Experimental I.
E aqui temos, de uma maneira extremamente acelerada, o percurso essencial feito pelos poetas da Poesia Experimental nos anos 60 e 70. Ficou muito por dizer mas o tempo não nos dá para mais. Num próximo programa falaremos das origens e dos fundamentos teóricos da Poesia Concreta e da Poesia Experimental, que é um assunto muito vasto. Por hoje pretendemos só mostrar alguns exemplos do que foi e do que é ainda a poesia, a acção, a intenção dos poetas da Poesia Experimental Portuguesa. Boa noite e até à próxima semana.


PROGRAMA 10

ROTURA - ANTIENTREVISTA COM JOÃO VIEIRA


- Slide - Filme ROTURA 6'

- ENTREVISTA - Insersor de caracteres: ANTIENTREVISTA COM JOÃO VIEIRA

- Tópicos da entrevista:

1. As palavras

- O que entende por escrita
- Acto/registo/desenho de símbolos/ actividade intelectual?
- O que está escrito e o seu significado
- Mostrar exemplos da minha escrita
- Diferença entre escrita à mão e escrita impressa
- A emoção
- a escrita da emoção? (Fernando Pessoa, e a emoção que não sinto)

2. As barreiras

- A leitura
- Hábitos de leitura
- Ler/escrever: a violência do acto passar para o lado de lá/o percurso
- O labirinto da escrita/leitura e do significado
- Todo o resto é literatura
- O resto e os restos

3. Sobre o filme:

- Dar o genérico/data/local, etc.
- Uma escrita/1eitura à escala do corpo humano
- Visitar um museu ou uma exposição é como folhear um livro...

4. O artista como exposição


PROGRAMA 11

MÚSICO-TEXTOS


O filme que hoje tenho para vos apresentar é parte de uma longa reportagem feita pela RTP do Porto de uma sessão de música experimental, que teve lugar na Cooperativa Árvore, também no Porto, em Novembro do ano passado. Nele veremos um grupo musical liderado por Jorge Lima Barreto e ainda Ernesto Melo e Castro, que dirá dois poemas seus.

Convidei Jorge Lima Barreto para vir até aqui falar-nos do seu trabalho mas como não lhe foi possível vir até aqui hoje, vou-vos ler algumas indicações técnicas que me foram fornecidas e que tentam elucidar os espectadores acerca da natureza e objectivos desta sessão que vamos ver. Quanto à parte musical- [ver o anexo 1]. Quanto aos poemas - [ver o anexo 2]

Como em breve irão verificar, esta sessão de música experimental integra-se perfeitamente na programação deste mês, dedicada aos aspectos de ruptura e futurização que a vanguarda assume. Mas para além desse aspecto, por de mais evidente nesta reportagem, há um ponto, uma questão, que ao longo de todos estes programas esteve sempre subjacente, uma questão que nunca foi nomeada mas que é essencial, axial em todos estes programas: a questão do exercício da crítica.

Apesar do carácter muitas vezes didáctico deste programa (didáctico contra a minha vontade, mas inevitavelmente assim) a questão da crítica ainda não foi aqui directamente abordada até agora. E quando eu digo crítica, ou a questão do exercício da crítica, não me quero referir «à feira das opiniões» que se vê por aí e cujo fundamento (ou infundamento) infelizmente se conhece: o que eu quero expressamente referir é a relação que existe entre a capacidade do exercício da crítica e a cultura.

Este tema será objecto de debate, não ainda neste programa mas nos seguintes, pois assim como não se pode conceber que capacidade artística e cultura estejam alguma vez desligadas, também não se poderá conceber que se possa exercer crítica sem cultura ou que se possa ser culto sem se exercer a crítica. Portanto, partindo do princípio de que para criticar é indispensável conhecer, voltando ao filme que vamos ver hoje, pessoalmente considero que ele é um desafio ao vosso espírito crítico - e foi precisamente por isso que o escolhi.

E por hoje, antes de terminar, decido anunciar-vos que os dois programas que apresentarei durante o mês de Março serão dedicados ao Teatro de Vanguarda: sendo um deles dedicado precisamente a Artaud e ao Teatro da Crueldade. Até lá, boa noite e boas críticas!

ANEXO 1

O sintetizador ARP Odissey é o instrumento mais avançado que alguém possui no país: o intérprete utiliza diversos tipos de programação da sua autoria, pelo método dos cartões perfurados sobre o painel do aparelho electrónico.

Interessa sobretudo a criação de matérias sonoras concretas e não a obediência ao formalismo que domina a generalidade das tipologias musicais.

O humor dirige deliberadamente o fluxo musical improvisado: a vanguarda é alegria e libertação, jamais pesadelo ou pretensiosismo. O músico da guitarra eléctrica suporta múltiplas bases temáticas num sentido explicitamente dinâmico, movimentando formas pré-concebidas. O declamador tem a sua voz alterada por um mini-sintetizador cujo discurso puramente tímbrico se encontra estipulado na massa sonora do tutU sintetizado.

O intérprete do sintetizador é um manipulador experimentalista dos sistemas que o programa sintetizado admite, e sem qualquer restrição dos conteúdos.

O sintetizador de ritmo é a evidente concepção pop do concerto, na medida em que ironicamente refere o despotismo da tecnocracia que substitui os homens pelas máquinas.

O sintetizador é o primeiro instrumento de solo da música electrónica, que vem abrir novas realidades no campo da música.

ANEXO 2

Poemas de E. M. de Melo e Castro

1.0 Poema fonético intitulado «Bloco branco», incluído no livro Versus- in-Versus.

2.0 Fragmento do poema longo «Diálogos» em que através de uma meditação entre qualidades opostas: grande/pequeno; dentro/fora; alto/baixo se propõe um ambiente. Incluído no livro Persistência das Palavras.